Apenas Um Momento




E a gente ficou lá, no bistrô. 
Sentados frente a frente, sem dizer nada enquanto nossos olhares alternavam de um para o outro, e a iluminação nas paredes ia se tornando laranja [era o Sol se retirando para ir dormir].
“Vamos manter só na amizade”, foi o que prometemos. Até que terça-feira passada chegou. Que humilhação.

Quando a moça com avental verde veio perguntar se poderia retirar nossos pratos, era a minha vez de te olhar e levantar uma sobrancelha em sinal de desaprovação, ainda que meu rosto não conseguisse transmitir a seriedade que a situação pedia. E você abaixou seus olhos, seu rosto, fez um semblante de culpa... mas também não conseguiu conter o sorriso no canto de seus lábios.

Duas horas mais cedo, você tinha pedido o bolo de chocolate belga, por minha causa, enquanto eu pedia o de limão, porque sabia que era seu favorito.
Foi pela cumplicidade que o hábito de pegar o bolo no prato do outro se tornou algo diário em nossa rotina. Hoje, pedimos bolos que ainda estavam intactos quando a moça com avental verde veio perguntar, gentilmente, se poderia retirar os pratos. Claro que não deixamos. Onde ela estava com a cabeça?
Apenas a olhamos ao mesmo tempo, que logo entendeu a deixa e partiu constrangida para a mesa seguinte.

E agora era a sua vez de me olhar... e eu te olhei. Nenhum de nós abaixou a cabeça em sinal de constrangimento. Sustentamos nossos olhares, que viraram mãos entrelaçadas, e olhos cheios de lágrimas que não precisaram cair.


- tudo o que pode vir a ser

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